Tuesday, December 27, 2005

Este natal...


O gesto pontual

Deste se faz lembrança
A esmola lógica deste dia
Simulando a festança
Que nunca foi banquete...
Parece, fica tão bem
Armar à caridade
Puxar da nota e mostrar
Que se tem sensibilidade
Apenas para aliviar
A dor num gesto pontual.
Numa caixa de cartão
Pesa num leito duro
Uma massa-gente encravada
numa portada
Ou num vão de escada
Como se fosse um lar...
único possível lar.
Com relutância indisfarçada
Olha-se de esguelha
a realidade não aliviada.
Jaz na dureza da pedra
a impotência descarada
de uma vida destroçada
sem horizonte de natal...
E amanhã...
-dê-me uma moedinha...

Saturday, November 12, 2005

Que se lixe



Estava tudo escrito
No pensamento…
Aquele poema do momento
Que não rascunhei
Por preguiça.
Foi-se...
E gostei
Do que pensei
Não fiz o rascunho
Por preguiça não guardei
Que se lixe!
Daqui a pouco
Lembrar-me-ei
E escreverei
Como é que o vento fala
Ou como a noite
Cumprimenta o dia...

Friday, October 28, 2005

Branca

Olho-te e vejo-te
Sempre estática
Rectangular e horizontal
Branca e vazia
Sem saberes como
Vais ser ultrajada.
Pode ser que sejas
Maltratada
Ou, quem sabe,
Peça de arte...
E, como sabes,
Conversa à parte,
Somos sempre um monólogo
Construído de revolta.
Mas, tu, sempre receptiva
Aceitas a missiva
Ou o disparate...
Estática e calma
Sem marca de àgua
Aceitas uma alegria
Ou uma mágoa...
Sempre paciente e mágica
Branca de alvura feita
Deixas-te riscar
Meigamente
Ou de forma trágica
recebes submissa
a história de cordel
ou o poema ...
Tu, folha de papel.

Wednesday, July 27, 2005

Neurónios maternais

Já passou um mês...
e não houve escrita
no verso, forma bendita.
O poema estava lá
em stand by
talvez à espera de um ai
que o soltasse do recôndito
escondido, onde, como ave
guardiã do ninho, protege
os depenados loucamente...
eles, os versos, estão lá
embrulhados e guardados
nos neurónios maternais
à espera do primeiro vôo...

Thursday, May 12, 2005

A razão



Tu que me lês
julgas que quero fama?
Não! O que eu digo
É que quero muito
Sonhar na minha cama.
Verdade!
Tu que me lês
Nem sabes como sou
Não sabes o que dou
Sem olhar a recompensas...
E tu que me lês
À espera do fim
Deste poema
Não sabes sequer
Dizer qual foi, no principio,
A razão deste poema.

Thursday, March 17, 2005

A rosa na prosa

Ouvi dizer um dia
A fraco desconhecido
Que um poeta sempre é
Escritor de segunda linha.
A ideia que ele tinha
Daquele que risca verso
é de não ser capaz
De pôr em prosa
história completa
com cem folhas...
Sentimento perverso
Por escrever em verso!
Ao meditar nisto,
Ainda hoje penso
Que esse infeliz
Na mente tem um "quisto"
Por não saber
Que se pode riscar
Num verso, uma rosa
E encher de flores
Um texto feito em prosa...